Egoísta, s.m. Sujeito mais interessado em si próprio do que em mim


Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando -- afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fico incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que "todo caçula é mimado".

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: "você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!", ao que eu responderia algo como "mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia".

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, entretanto, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhum neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.