Considerações de um baiano no Serejão

Eram 7:30 da manhã de domingo quando eu pulei da cama. Minha doce e sonolenta consorte, ainda com o rosto colado no travesseiro, estranhou:

- Que é isso, Lionel? Acordando de madrugada no domingo? Teve aquele pesadelo com o mascote da Michelin de novo?

- Hein? Não, não, estou indo ver o jogo.

- Jogo?! Que raio de jogo é esse domingo de manhã? -- questionou minha doce e desconfiada esposa, finalmente desgrudando o rosto do travesseiro -- Campeonato da Nova Zelândia?

- Não, muito melhor! Vou atravessar a cidade de carro, pegar o metrô, passar por doze estações e depois caminhar cerca de um quilômetro¹ para assistir a uma partida da Terceira Divisão entre o Brasiliense e o Fortaleza. -- respondi distraído, enquanto procurava minha camisa do Mais Querido da Bahia, o Esporte Clube Ypiranga -- Você quer ir?

Tenho a sensação que minha doce e conformada cônjuge murmurou algo sobre não ter matado a própria mãe com um badogue, mas não estou certo porque a essa altura seu rosto já estava novamente embrenhado no travesseiro.

Foi assim que teve início a minha jornada rumo ao estádio Elmo Serejo Farias, na cidade de Taguatinga, a fim de acompanhar a peleja entre Brasiliense e Fortaleza pela 5ª rodada da Série C do Brasileiro, munido apenas de muito amor pelo futebol, pouco bom senso e, infelizmente, nenhum protetor solar.

Brasília tem tantas nuvens quanto políticos honestos

"Mas Lionel", o distinto leitor poderia questionar, "você não é candango nem cearense. Que diabo tu perdeu em Taguatinga para ir ver jogo da terceira divisão?"

"Curiosidade jornalística. E você flexionou incorretamente a segunda pessoa do verbo perder", responderia eu.

"Largue de ideia que você nem é jornalista. E pode pegar essa segunda pessoa e enfiar no tu", objetaria meu hipotético e malcriado leitor.

De fato, analisando em retrospecto, vejo agora que talvez não tenha sido a mais acertada das decisões, a começar pela indumentária escolhida: a camisa do Ypiranga calha de ter as mesmas cores do uniforme do Brasiliense, algo pouco recomendado quando se pretende assistir a um jogo de forma isenta.

Além disso, o fato de estar de camisa amarela não impediu o bilheteiro capenguinha de me indicar o portão de entrada da torcida do Fortaleza.

Teria ele confundido o meu legítimo sotaque baiano com o modo de falar cearense? Ou talvez padeça de algum tipo estranho de daltonismo que confunde amarelo e preto com azul e vermelho? Depois de muito meditar a respeito, creio que a melhor explicação foi aquela dada por meu caro amigo Franciel Cruz: todo capenguinha é escroto.

De todo modo, somente percebi a enrascada na qual me encontrava depois de adentrar no estádio, quando deparei-me com centenas, não, MILHARES -- tá bom, só umas duas dúzias -- de torcedores fortalezenses olhando desconfiados para meus malsinados trajes.

Naquele momento eu tinha poucas opções. Cheguei a considerar sair do estádio e comprar um novo ingresso, desta feita para a torcida local, mas essa poderia ser considerada uma saída covarde pelos maledicentes que ignoram que baiano frouxo nasce morto.

Além disso, pagar extorsivos CINCO REAIS por um novo ingresso significaria uma cerveja a menos, o que afastou definitivamente essa opção.

Meus pensamentos foram subitamente interrompidos quando tocou em meu ombro um torcedor usando trajes típicos cearenses: sandália de couro, chapéu de cangaceiro e uma BAINHA DE FACÃO presa no cinto.

Eu, evidentemente, respondi com bravura e galhardia:

- Pelamordedeus não me mate! Eu não sou brasiliense, não chamo ponto de ônibus de parada, não acho normal pagar seis reais num cachorro-quente e não chamo mugunzá de canjica! Adoro o Ceará, sou fã de Didi Mocó, creio até que votei em Ciro Gomes nas eleições de 2002!

- Tudo bem, macho. Mas será que tu pode dar licença? Já tem uns quatro minutos que tu está parado na frente do portão, impedindo a gente de entrar.

Foi então que percebi como o clima de tranquilidade reinava nas arquibancadas. Só vi violência mesmo dentro de campo, com alguns jogadores maltratando a bola. Na torcida, foi tudo na paz, pelo menos até o goleiro João Carlos fazer uma defesa memorável... do lado de dentro do gol. Aí realmente eu vi alguns torcedores mais exaltados.


Mas, convenhamos, não dá para tirar a razão deles.
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¹ Descrição fidedigna do trajeto, sem exageros.