Do Tipo Cara Valente

Era uma fria noite sem lua, estranhamente silenciosa.

Um calafrio percorreu a minha espinha quando pus a chave na fechadura. Havia algo estranho no ar, mas eu não conseguia bem definir o quê.

Abri a porta com cuidado, respirando lentamente, quando minha doce e zoólatra esposa anunciou:

- Olha quem chegou! Valente, vá receber ele na porta!

E foi então que eu vi. O emissário do Tinhoso, o representante do Capiroto, o estagiário do Pata Rachada, a besta enviada para me fazer pagar pelos meus pecados que atende (quando quer) pelo nome de Valente, embora eu ache que "Cérbero" teria sido mais apropriado.

Contemple seus olhos vis e cruéis, seu semblante de pura maldade

É claro que nesse primeiro momento eu não fazia ideia de que aquela criatura era o mal encarnado; na minha inocência, achei que se tratava de um simples cachorro, obtido quem sabe em um pet shop ou numa feira de adoção -- não passou pela minha cabeça que ele poderia ter vindo diretamente dos mais profundos círculos do inferno.

E nem poderia ser diferente, pois até então ele vinha agindo como um ordinário cão não-infernal. Sua verdadeira face somente veio à tona uma semana depois, quando a minha doce e peregrinante companheira teve de, convenientemente, se ausentar de casa por alguns dias.

Nada de demoníaco nesse olho revirado, não senhor

Foi só aí que a besta se revelou. Calhas de plástico, mesas de madeira, reboco da parede e esquadrias de alumínio, nada parece aplacar sua sanha destruidora -- até porque seu verdadeiro objetivo é a minha alma imortal.

O simples fato de dentes recém nascidos serem capazes de destruir grades de metal já deveria ser um bom indicativo, mas eu realmente só concluí que estava diante de uma fera sobrenatural quando observei ser fisiologicamente impossível para uma criatura de trinta e cinco centímetros de comprimento produzir aproximadamente oito litros de urina e quinze quilos de fezes... nove vezes ao dia.

Mas para a minha doce e implacável esposa, não é suficiente deixar-me à mercê de uma besta infernal. Com requintes de crueldade, ela me telefonou para saber os detalhes da minha via crucis:

Só um filhotinho
- Oi, Amor. Como está nosso cachorrinho?

- O Tinhoso está bem, quem está em perigo sou eu. Descobri que não vende água benta no supermercado aqui da frente, veja que absurdo.

- Que exagero, ele é só um filhotinho. O que foi que ele fez de tão grave?

- Olha, é mais fácil você perguntar o que ele não fez, porque fora girar a cabeça 360º, todo o resto do filme O Exorcista já foi interpretado. Só vomitar guacamole já foram bem umas seis vezes, e eu tenho quase certeza que ele estava falando latim agora há pouco.

- Essa não, minha fofurinha vomitou?

- Acho que você não está compreendendo bem a gravidade da situação. Quem está preso com a encarnação do coisa ruim sou eu, você está se preocupando com o personagem errado desse filme de terror.

- Nossa, como você exagera. O pobrezinho deve estar entediado, já tentou dar uns brinquedinhos para ele morder e se distrair?

- Já tentei de tudo. Bichos de pelúcia, garrafas pet, meus óculos, minha mão esquerda, dois de seus pares de sapat...

- Meus o quê?!

A voz dela tinha descido pelo menos umas duas oitavas e eu tenho certeza que as lâmpadas da casa piscaram por um segundo. Tive de ser rápido na resposta.

- Oi? A ligação está falhando, meu anjo, vou ter que desligar pra cuidar do seu lindo e amável cachorrinho. Beijo, beijo.

Admito que talvez não tenha sido a saída mais corajosa, mas lidar com duas entidades possuídas ao mesmo tempo vai um pouco além do que eu posso aguentar, especialmente porque não tenho o telefone do Padre Damien Karras.

Agora com licença, preciso encerrar esse texto porque tenho de ir ao petshop comprar novas oferendas para o Senhor das Trevas.

E sapatos, não posso esquecer dos sapatos.