Alterar, atritar e estabocar

Talvez por contar com quase quinhentos anos de idade, Salvador mantém alguns costumes próprios da Idade Média, como cheiro de urina em algumas ruas, beber Nova Schin e eleger políticos adeptos do feudalismo.

Mas a característica mais tipicamente medieval da bela Soterópolis, creio, é a tradição dos insultos que antecedem brigas e altercações.

Explico. É sabido que antes de se enfrentar no campo de batalha, os exércitos medievais trocavam ofensas, xingando-se mutuamente enquanto criavam coragem -- isso é, enchiam a cara -- para se lançar contra o inimigo.

Da mesma forma, quando por qualquer motivo, razão ou circunstância precisa ir às vias de fato, o soteropolitano honra essa tradição centenária engajando-se em uma disputa de impropérios, que serve ao mesmo tempo para aquecer os lutadores e minar o moral do adversário antes da peleja.

Assim, reproduzo a seguir um típico diálogo que pode ser ouvido nos momentos que antecedem uma luta na capital baiana, tentando na sequência esclarecer para os não versados na cultura soteropolitana o que está ocorrendo:

- Colé de merma? Tá querendo atrito, é?

Essa costuma ser a frase inaugural da disputa. Nesse primeiro momento, os combatentes ainda estão se estudando, testando os limites do adversário.

- Rapaz, se saia, num procure alteração pro meu lado não que eu não lhe dei ousadia.

Aqui o segundo guerreiro tenta, ainda que de forma passivo-agressiva, dar uma última chance à paz. Raramente tem sucesso.

- Quem veio procurando atrito foi você, num venha com xibiatagem pro meu lado não que o plantão aqui é duro. Uma carniça dessas? Pico-lhe a porra.

Entramos propriamente nas ofensas, com direito inclusive a esse belo exemplo de uso da ênclise no dialeto baianês. Outro exemplo, com o mesmo sentido semântico, seria "rumar-lhe a desgraça" ou, mais propriamente, "rumaladisgraça".

- Se plante, maluco. Num vou comer reggae seu não.

Atingido o ponto sem retorno, não resta alternativa senão desafiar clara e diretamente o rival, que por sua vez tem a obrigação de responder à altura:

- Tem condições? Caia pra dentro que eu vou deixar sua cara mais amassada que chinelo de gordo, vou pancar tanto que não vai sobrar nem o mocotó, tu vai levar mais bicuda que cordeiro do Chiclete, tá me entendeno?

Note que o uso do GERÚNIO ("entendeno") amplifica o tom da ameaça, ainda mais fechando uma sequência tão bem amarrada de injúrias.

- Hum. Deixa quieto.

Aqui vemos mais uma característica singular das pugnas baianas: é perfeitamente possível ganhar a briga por pontos na preliminar de ofensas, sem que seja desferido um soco sequer. Nesses casos, cabe ao vencedor ter altivez e não escarnecer do adversário sobrepujado:

- Então tá de boa. Vou escaldar não que você é corrente. Bora ali, eu te pago uma cerveja e a gente deixa isso para lá. Aliás, nem sei mais por que eu estava tão injuriado, você lembra?

Da mesma forma, é sempre importante que o derrotado demonstre saber perder e aceite a oferta de paz concedida:

- Lembro sim. Tudo começou porque a gente estava discutindo quem ia pagar a cerveja dessa vez.

Rise and Shine

Eu tenho uma grave falha de caráter.

Ok, os maledicentes dirão, não sem razão, que eu tenho mais de uma, mas para os propósitos deste texto vou me limitar a uma falha específica: sou bem humorado pela manhã.

"Ah, Lionel, que drama", apontaria o incauto leitor que ignora a discriminação que a sociedade impõe às pessoas que não acordam desejando que um meteoro aniquile a vida no planeta se isso significar mais cinco minutinhos na cama.

A verdade, contudo, é muito mais implacável. Nós, morning people, somos cruelmente marginalizados, como se tivéssemos culpa por acordar sem necessariamente desejar uma morte lenta e dolorosa para aquele sabiá cantando alegremente na janela.

Aliás, tal como ocorre no caso dos cornos, o que temos aqui é um evidente caso de culpabilização da vítima. É claro que eu gostaria de ter pensamentos homicidas pela manhã como qualquer ser humano normal, mas nem sempre querer é poder.

O fato é que, desde muito cedo aprendi que a melhor forma de evitar a discriminação por essa falha imperdoável é fingir mau humor pela manhã, a fim de se misturar com o ser humano médio.

Assim, meus colegas de trabalho que já se acostumaram a me ver de fones de ouvido logo cedo decerto acreditam que eu estou ouvindo música pois estou mal humorado demais para conversar, mas a verdade é que tenho receio que mesmo a menor interação seja suficiente para detectarem meu humor matinal pouco ortodoxo.

O que eu faço, portanto, é agir como o apresentador de um daqueles documentários do Discovery Channel em que o sujeito se veste de urso panda para se misturar aos bichos e descobrir por que diabos eles não estão transando (não sei a resposta, mas também não vi o Discovery ter essa preocupação toda comigo durante a minha adolescência).

Nessa posição de observador eu já compreendi e venho tentando mimetizar a forma como os seres humanos normais se comunicam no turno da manhã, que consiste basicamente em responder qualquer pergunta murmurando algo sobre ainda não ter bebido café. Venho fazendo isso já há alguns anos e continuo surpreso pois até hoje ninguém questionou o fato de que uso essa desculpa mas nem café eu bebo.

Porém, viver nesse permanente estado de tensão, sempre temendo ser descoberto como pessoa matinal é causa de muito estresse, algo que não desejo para ninguém. Na verdade, tenho até receio que seja uma característica genética e que minha prole eventualmente sofra o cruel julgamento da sociedade como eu sofro.

Assim, venho ponderando também se haveria algum tipo de vacina ou antídoto capaz de curar esse mal, ou ao menos impedir que ele se desenvolva nas futuras gerações, poupando-as de tanto sofrimento.

Confesso que meus experimentos nesse sentido não seguiram propriamente o método científico, mas as primeiras conclusões que tive depois de uma série de experimentos com minha nova companheira apontam que o melhor remédio para curar o bom humor matinal é, ironicamente, bom humor matinal: nada é tão eficiente para proporcionar mau humor do que ser acordado com pessoas alegres e passarinhos cantantes como se estivéssemos em um musical da Disney.

Então, como autonomeado expert no assunto, faço um apelo aqui: acorde seus filhos com música, sorrisos e comentários sobre a bela manhã que está fazendo. Somente esse trauma impedirá que eles venham a sofrer desse terrível mal que é o bom humor.